Brasil deve ser beneficiado por cenário geopolítico no petróleo, diz estudo da Firjan

O mercado de energia deve passar por uma profunda transformação mesmo que as conversas de paz entre Estados Unidos e Irã cheguem a um desfecho positivo, algo do qual ainda não havia indício na noite de ontem. E Brasil e América Latina podem ser os maiores beneficiados dessa mudança de cenário. É o que mostra o Anuário do petróleo no Rio 2026, divulgado pela Firjan.

De acordo com o estudo, o cenário geopolítico consolida a América Latina como uma nova potência petrolífera, e o movimento é liderado pelo Brasil, que através de suas reservas no pré-sal e de uma frota avançada de plataformas FPSO, assumiu a liderança da produção no continente. Em resumo, a região ganha destaque por combinar potencial de expansão da produção com menor exposição a riscos geopolíticos do que os grandes produtores do Golfo Pérsico.

Na noite de domingo, após novas ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de atacar o Irã caso o Hezbollah mantenha a ofensiva contra Israel, o barril do petróleo tipo Brent abriu em alta de até 2,2%, a US$ 82,30. As negociações tiveram um início turbulento neste domingo na Suíça, coma a presença do vice-presidente dos EUA, JD Vance, representantes do Irã e mediadores de Catar e Paquistão.

A imprensa iraniana informou que Teerã havia interrompido as conversas após a mais recente ameaça de Trump. Ainda assim, pessoas a par do assunto informaram à Bloomberg que os iranianos não abandonaram a negociação.

É justamente essa instabilidade no cenário que deve ser incorporada à precificação de ativos após o conflito. De acordo com o levantamento da Firjan, o preço do barril tende a deixar de ser determinado apenas pelo custo de produção e passar a incorporar mais fatores como segurança, logística e risco geopolítico das rotas de exportação. Diante disso, produtores de fora de regiões sujeitas à turbulência ganham relevância, mesmo que seus custos sejam mais elevados.

Rio como polo nacional
Na América latina, os destaques além do Brasil, são Guiana e Suriname, além da perspectiva de crescimento da produção argentina e de uma possível retomada gradual da atividade petrolífera na Venezuela. No Brasil, o pré-sal contribui com mais de dois terços da produção nacional de petróleo e gás natural. A estimativa é que o pico da produção no país seja alcançado em 2032, com 5,1 milhões de barris.

“Como consequência, o Brasil deve se consolidar entre os principais exportadores globais de petróleo, com destaque para o papel do Estado do Rio como principal polo produtor nacional”, afirma o estudo. O mercado de trabalho no Estado do Rio deve avançar e gerar mais 1.400 postos até o fim de 2027, o que elevaria o contingente de trabalhadores no setor a cerca de 96 mil.

Em outra frente, o anuário também aponta que a crise reforça o papel da diversificação energética como questão que vai além do fator ambiental, passando a ser abordadatambém sob a ótica de segurança nacional, à medida que países com matrizes mais diversificadas se mostram mais resilientes ao choque. “Essa percepção pode acelerar a eletrificação em mercados-chave, reduzindo a demanda de petróleo no médio prazo enquanto a oferta já enfrenta restrições estruturais”, diz o estudo.

O levantamento afirma que uma das origens dessa nova configuração do mercado foi a transformação dos EUA de grande importador em exportador líquido de energia, impulsionado pela expansão da produção e pelo shale gas, o que reduziu a dependência do petróleo do Golfo Pérsico.

Impactos na economia
Ainda assim, as consequências para a economia global e a do Brasil já começam a ser percebidas. A alta dos preços do petróleo tem pressionado a inflação em diversos países, incluindo o Brasil, e reforçado as preocupações sobre o rumo da política de juros e da atividade econômica.

O FMI já reduziu sua projeção de crescimento para a economia global de 3,3% para 3,1% este ano. Caso o conflito se prolongue e mantenha o petróleo em alta, a expansão pode desacelerar para apenas 2%, patamar próximo ao da crise financeira de 2008 e da pandemia de Covid-19.

No Brasil, se a alta do petróleo eleva a arrecadação ligada ao setor, também pressiona preços de combustíveis, transporte e energia, aumentando expectativas de inflação. A projeção do Boletim Focus para o IPCA deste ano subiu de 4% em janeiro para 4,86% no fim de abril. E, na semana passada, chegou a 5,3%.

As apostas em cortes de juros mudaram, com a expectativa para a Selic do fim de 2026 passando de 12%, na previsão de janeiro, para 13%, no fim de abril, e agora para 13,75%.

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